
Noventa e quatro anos após a assinatura do decreto de 1932 que garantiu o sufrágio às mulheres no Brasil, um debate que parecia sepultado pela história voltou a assombrar o cenário político. O direito ao voto feminino entrou no centro de uma ofensiva ideológica orquestrada por influenciadores digitais, criadores de conteúdo ultraconservadores e correntes políticas associadas à direita radical tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. A pauta, anteriormente restrita a fóruns marginais e subculturas da internet, como a chamada “machosfera” e os grupos “Red Pill”, ganhou tração nos canais de comunicação de massa e passou a ser utilizada como uma ferramenta estratégica de mobilização ideológica na reta final da campanha eleitoral de 2026.
Para entender o tamanho do fenômeno, basta observar os dados mais recentes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Atualmente, as mulheres representam 52,8% do eleitorado brasileiro, totalizando cerca de 83,8 milhões de eleitoras aptas a votar. Como o maior bloco votante do país, elas detêm o poder de definir os rumos das eleições presidenciais e legislativas. Diante desse peso matemático e da tendência histórica de o público feminino rejeitar propostas de extrema direita ou candidaturas associadas a discursos considerados machistas, núcleos da ultradireita passaram a questionar abertamente a legitimidade da participação das mulheres na democracia contemporânea.
Os argumentos e as figuras por trás dos ataques
A atual investida contra o sufrágio feminino baseia-se em conceitos como a “democracia familiar” ou o “voto doméstico”. Os defensores dessa tese argumentam que o modelo democrático ideal deveria conceder apenas um voto por residência, exercido exclusivamente pelo chefe da casa — papel que atribuem ao homem. Nesse modelo, a vontade política da esposa e das filhas solteiras seria fundida à decisão do patriarca.
As frentes públicas dessa campanha incluem influenciadores de grande alcance digital. Em junho de 2026, o blogueiro Paulo Figueiredo declarou em uma transmissão que as “mulheres votam, estatisticamente, muito mal, principalmente as solteiras”. Segundo a sua argumentação, o eleitorado feminino agiria de forma primordialmente emocional e não lógica, uma reedição de falas antifeministas do século XIX. O avanço desse discurso acionou alertas nos órgãos reguladores; o Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul (TRE-RS), por exemplo, chegou a ordenar a remoção de conteúdos em que o influenciador desferia ataques generalizados contra candidatas mulheres.
O questionamento ao sufrágio não se restringe aos homens da extrema direita. Uma investigação conduzida pela BBC News Brasil mapeou criadoras de conteúdo com milhões de seguidores que também defendem a revogação do próprio direito de votar. A influenciadora Pietra Bertolazzi, que conta com mais de 1,3 milhão de seguidores, prega abertamente a submissão feminina e rejeita as estruturas do Estado moderno sob uma ótica moral e religiosa. Outro exemplo é Fernanda Guardian, sócia de uma consultoria de investimentos, que viralizou ao afirmar publicamente que “o voto feminino foi um erro” e que “abriria mão facilmente” do seu direito em prol de um modelo tradicionalista.
A institucionalização do discurso: Do Livro Amarelo à retórica americana
O debate extrapolou o campo da opinião individual e encontrou respaldo em manifestos programáticos de novas legendas. Críticos e analistas apontam que a proposta de “democracia familiar” foi introduzida no debate partidário brasileiro por publicações ligadas a novas correntes conservadoras. Ideólogos ligados a essa linha, como Orlando Lima no chamado Livro Amarelo, defendem que a descentralização do voto desintegrou a unidade familiar tradicional e que a reconstrução civilizacional do país passa pela restrição dos direitos políticos. O texto sugere que indivíduos sem propriedades privadas ou que dependam de auxílios financeiros governamentais deveriam ter o direito de voto retirado, focando a tomada de decisões nos provedores econômicos masculinos.
Esse ecossistema político brasileiro reflete diretamente as tendências observadas nos Estados Unidos. Setores radicais associados ao nacionalismo cristão e ao movimento “Make America Great Again” debatem de maneira recorrente a flexibilização ou revogação da 19ª Emenda da Constituição Americana, que garantiu o voto feminino no país em 1920. Figuras públicas do alto escalão conservador no exterior e pastores fundamentalistas têm utilizado suas plataformas para argumentar que a entrada das mulheres no mercado de trabalho e na política partidária reduziu as taxas de natalidade e desestabilizou o lar cristão.
Reações jurídicas e o impacto na eleição de 2026
O avanço desse discurso provocou forte reação de juristas e cientistas políticos. A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, manifestou-se publicamente de forma enfática sobre o tema, classificando qualquer tentativa ou tese de extinção do voto feminino como flagrantemente inconstitucional. De acordo com a jurisprudência nacional, o voto universal, direto e secreto é considerado uma cláusula pétrea da Constituição Federal de 1988, o que significa que o direito não pode ser cassado ou mitigado sequer por meio de Propostas de Emenda à Constituição (PECs). “Para extinguir o voto feminino, seria necessário rasgar a atual Constituição”, alertou a ministra.
Historiadores e sociólogos apontam que o questionamento do sufrágio feminino funciona, fundamentalmente, como uma tática de cortina de fumaça e engajamento. Ao levantar uma pauta intencionalmente polêmica e incendiária, os estrategistas digitais conseguem manter suas bases de apoio altamente mobilizadas, gerando ondas de indignação que dominam os algoritmos e atraem a atenção pública para longe de temas econômicos complexos. Além disso, a retórica visa emparedar culturalmente as mulheres que exercem sua autonomia política de forma independente dos núcleos familiares.
À medida que o eleitorado se encaminha para as urnas em 2026, as mulheres se firmam como a barreira mais sólida contra investidas de teor extremista. A reação das entidades de defesa dos direitos civis e dos tribunais eleitorais indica que, embora a proposta de acabar com o voto feminino não encontre viabilidade legal ou institucional no Brasil, o simples fato de ela ser vocalizada e defendida por figuras com milhões de seguidores mostra que a vigilância democrática precisa ser constante.
📬 Colabore com a TV Campo Grande!
O jornalismo local é feito com a força da comunidade! Você tem alguma reclamação do seu bairro, sugestão de melhoria, evento cultural ou notícia relevante em Campinas e região? Fale diretamente com a nossa redação.
Além disso, se você é microempreendedor ou possui um comércio local e deseja expandir o alcance da sua marca para milhares de moradores da nossa cidade, anuncie conosco!
📱 Envie sua mensagem pelo WhatsApp: (19) 98369-2505
🌐 Acesse nosso portal oficial: www.tvcampogrande-campinas.com.br
Acompanhe-nos também em nossas redes sociais:
• YouTube | TikTok | Instagram | Facebook | LinkedIn: @tvcampogrande





